|
Dizem que cheguei aqui em condições precárias, e sem saber quem eu era. Que passei dias de fome, sede e frio. Não sei se é verdade, mas a verdade que tenho dentro de mim é que sou fruto do encontro de três raças.
Sou mandinga, malícia e jogo, porque sei ganhar e perder. Sou homo, porque não tenho sexo definido, ou seja, sou homem, menino e mulher. Sou inodoro, porque não tenho cheiro.
Dizem que tenho minhas origens na pele preta, mas acredito que sou incolor, pois não tenho cor e sou de todos.
Sou fera, porque deixo o meu rastro por onde passo. Sou fruto daqui desta terra. Sou sua, e você é meu.
Sou vida porque vivo dentro de você, então você sou eu. Sou pagã, derradeira e escudeira. Sou a exclusão de uma sociedade e sou aceita pela mesma. Sou uma escória. Por que me rotularam assim? Não importa, sou a história deste povo.
Dizem que me libertaram em 1930, mas acho que sempre fui livre, sou dona de mim, por isso sou assim, ágil, lenta, rasteira, malandra, adulta e infantil, eu sou brasileira.
Sou cúmplice daqueles que me querem. Tenho a minha própria sina, pois sou gentil e amorosa. Sou cortês, acho que tenho que ser sempre assim, afinal a "cortesia é contagiosa". Sou irreverente e equilibrada. Assim sou eu, altamente minuciosa.
Transpassei o transcurso do meu tempo e acredito que viverei eternamente porque sou passada de boca em boca, de geração à geração.
Assumo que tive meus dias de repressão, mas me fiz vitoriosa, tenho meus fundamentos baseados na minha própria tradição, fiz a minha própria lei.
Sou luta, pois estive na guerra. Guerreei junto com o meu povo. Sou arte porque sou bela e talvez a mais bela de todas elas. Sou dança porque me mecho mediante a música e me solto no compasso da minha ginga. Sou cultura, sou a estrutura de um povo.
Peço a você que me identifique, Você me dirá como quer me pintar. Com licença, permita que me apresente. Meu nome é capoeira. Sim, sou eu, sou eu camará.
Agora lembre-se sempre que sou daqui desta terra. Estive na colheita do café, cortei cana nos canaviais. Estive amordaçada nas senzalas e violada por maus feitores, mas rodei minha baiana e dei a volta por cima. Me tornei a coqueluche daqueles que diziam ser meus senhores.
Sou eu, sou eu camará. Eu sou capoeira.
Sou o brilho e o ofuscar das nuvens escuras que sobrevoavam sobre mim naqueles tempos, tempos de tristeza, maldade e desasossêgo. Como? Remordimento? Nunca!
Fui acorrentada, e por mim muitos foram sacrificados. Reconheço o esforço de todos. Mas o que passou, passou e esse tempo já é passado.
Hoje sou plena e agradecida, mas para chegar a esse ponto tive que viver na noite, na esbórnia, na boemia e na malandragem. Nesse tempo todo mundo já me conhecia e nele eu dei cabeçadas e rasteiras.
Vaguei pelos becos, tive minha morada no gueto, me transformei em cineasta, hoje deleito de uma vida vasta.
Sou eu, sou eu camará. Sou eu capoeira. Sim, sou agradecida e rebelde, pois estive um período à merce da delinquência.
Mas, me informei, me graduei e no meu diploma queriam que contasse que fui vadia por ter me refugiado na alegria das ruas. Sim, é verdade! Queriam também que contasse o perfil de uma das profissões mais antigas do mundo.
Lembre-se, vivi nas ruas, rodei dentro de grandes círculos e centros, dei a volta ao mundo, mas não sou vagabunda.
Meu nome é capoeira Sou eu, sou eu camará. Sou a digestão de "tudo o que a boca come". Sou aquilo que você quiser.
Mas lembre-se, que eu bato com a mão, a cabeça e o pé.
Sou anjo e criatura, porque fui a própria desordem, e hoje eu sou camará, a ordem e progresso do meu povo.
Para concluir deixe-me resumir toda uma vida de persistência e experiência.
"Desde a noite que me envolve, negra como um poço escuro de polo a polo, agradeço aos deuses, quaisquer que sejam, por minha alma indomável. Nas garras dos ferozes das circunstâncias, não me entreguei, nem gritei com voz alta, de baixo dos açoites injustos. Tenho a cabeça ensanguentada, não inclinada. Para mim não importa que a porta seja estreita ou que eu tenha um pergaminho carregado de condenas. Eu sou a dona da minha sorte, eu sou a capitã do barco em que navega o meu espírito". Eu sou capoeira. 
Texto de: Wellington de O. Siqueira. Mestrando CINZENTO. Tel: 600072978
Esta dirección electrónica esta protegida contra spambots. Es necesario activar Javascript para visualizarla
Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo www.aluacapoeira.com |